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::Blog do Jair
Artigo do Jair Feitosa: Crônica de um Vira-lata
Publicado em 01.05.2010 - 23:23:27

(...) caminhamos rumo a uma padronização generalizada de comportamentos..

Imagem: Divulgação
Vira-lata acorrentado

 

CRÔNICA DE UM VIRA-LATA 

por Jair Feitosa (BLOG DO JAIR FEITOSA)


“Não sou escravo de ninguém/ Ninguém é senhor do meu domínio/ Sei o que devo defender/ E por valor eu tenho/ E temo o que agora se desfaz...” (1)

Em primeiro lugar diremos que somos convictos que o conjunto de normas, regras, leis e convenções necessárias são fundamentais para que exista vida em sociedade (socius = sócio, companheiro, parceiro). Sem elas nos resta a barbárie.

Em segundo lugar, que muitas normas, regras, leis e convenções tornaram-se impedimentos para o exercício das liberdades individuais nestes tempos de exageros do “politicamente correto”. Entendemos que caminhamos rumo a uma padronização generalizada de comportamentos, preferências, escolhas, costumes. Isto é péssimo, pois estamos próximos, nestas posturas que refletem os gostos, escolhas, costumes, de extinguir as diferenças.

Não vamos, entretanto, falar de normas, regras, leis e identidades pessoais. Não é nossa pretensão. Mas falar de um tipo de convenção (esdrúxula) porque ninguém conseguiu nos convencer de sua racionalidade. Tentaram, mas com argumentos inconvincentes: “É assim porque todo mundo diz isso”; “Vem de muito tempo”; “É uma convenção social”; “É higiênico”... Nada além do estabelecido vulgarmente. Estamos nos referindo à “proibição”, pela convenção, de se usar uma mesma roupa (calça ou camisa) várias vezes seguidas.

Trabalhei durante dez longos anos numa empresa particular. Foram anos de luta contra os meus gostos e preferências estéticas. Todo dia levantava, fazia a barba, vestia camisa com mangas longas, calça social, sapatos e gravata. E me tornava um ser que não sou por causa de uma convenção conveniente aos valores da empresa. Neste aspecto, foram dez longuíssimos anos sendo outro, ou representando outra personalidade. Por isso é que, em muitos aspectos, é inelutável a força, a pressão e a influência da sociedade sobre nós.

Nesta época eu trabalhava e estudava. Com mulher e filha dependendo do meu esforço para aturar a tortura, resisti até a minha insatisfação se tornar um entrave na realização do trabalho que executava, e que também detestava. Então resolveram me libertar, quer dizer, me mandar embora. Estava completamente desmotivado.

Pensei que o mundo tinha se acabado, por causa das necessidades que tinha de suprir. Mas resolvi trabalhar na minha área de conhecimento profissional, Licenciatura em Filosofia. Perdi dez anos de minha vida, hoje eu sei. Enquanto me sustentava e era infeliz deixei de fazer o que hoje faço completo, sem reservas, com alegria. E o que corrobora para o meu bem estar é ter o visual que tenho, que alguns criticam com a intenção de me enquadrar na padronização, mas que é sendo como sou que me sinto bem: com barba por fazer e roupa despojada, muito despojada. Dez anos foram suficientes para eu saber que detesto ser de outro jeito. Só muito ocasionalmente cedo às convenções sociais, no mais zombo delas como os Cínicos ensinaram.

Minha esposa parece que desistiu de reclamar quando vou trabalhar alguns dias seguidos com a mesma calça ou camisa: “As pessoas vão falar”. Contudo, quando vou trabalhar com farda a semana toda ninguém diz nada. Quando é farda pode. Quando não é, não pode. Mesmo que a não-farda esteja ainda em condições de uso e a farda suja, os convencionais preferem a farda? E o argumento da higiene? E a racionalidade?

ANTÍSTENES (440-336 a. C.) era humilde. Filho de pai ateniense e de mãe trácia e por isso era considerado pelos convencionais e pelas leis de Atenas um nótos (bastardo, filho ilegítimo da Pólis). Foi discípulo de SÓCRATES e fundador da Escola Cínica (palavra derivada de Kynós em grego e que significa: cão, cachorro). A Escola foi fundada no Ginásio Cynosargo (Cachorro Branco) local em que se encontrava com outros nótoi (bastardos) para filosofar.

Mas o nome da Escola faz referência também ao modo de vida dos cachorros que desprezam completamente as convenções sociais, e como eles (cães) os Cínicos andavam seminus, comiam e viviam nas ruas e até fornicavam em público (1).

Desprezavam e zombavam das convenções sociais. Afirmavam que “... a virtude reside tão-somente na vontade que permite ao homem, como Hércules, triunfar sobre si mesmo e sempre assegurar sua independência desdenhosa” (2). Zombavam “... daquele que se acha integrado nos usos e costumes de sua cidade, ou de sua pátria, cujas leis cumpre por hábito...” (3). A negação de tudo, até dos prazeres sensíveis, tornaria o homem virtuoso. Não sendo apegado a nada, “... nada lhe falta, pois tornou-se senhor de si mesmo” (4).

O mais conhecido dos Cínicos é DIÓGENES (404-323 a. C.). Foi expulso de sua cidade natal (phratria) por ter, junto a seu pai, o banqueiro IKÉSIOS, falsificado dinheiro. Exilado em Atenas escreveu a um amigo solicitando que lhe emprestasse uma casa para morar. Como o amigo demorou a responder foi morar num barril de madeira. Alguns atenienses caçoavam dele por ter sido exilado por seus compatriotas, mas sempre respondia: “E eu os condenei a viver na cidade” (5).

ANTÍSTENES era chamado de o “verdadeiro cachorro”. DIÓGENES se dizia “o cachorro”. Numa de suas viagens, não se sabe o motivo, ele teria sido vendido como escravo “... a um cidadão chamado XENÍADES que, impressionado com a resposta de DIÓEGENES no mercado sobre o que sabia fazer: “Comandar! Quem quer comprar um senhor?”, o fez preceptor de seus filhos” (6).

Selecionamos as passagens que demonstram zombaria e despojamento às convenções sociais porque desejamos mostrar que os Cínicos abusavam “... das regras dos cidadãos [e] era uma forma de mostrar a eles que viviam por convenções e eram escravos delas” (7).

O total auto-domínio sobre as paixões, prazeres, desejos, temores levaria o homem a ser senhor de si mesmo. E assim ele se tornaria sábio e feliz. Sem se prender a nada os Cínicos andavam com seus andrajos, bordões e alforjes e comiam o que lhes ofereciam. DIÓGENES era querido e sempre que suas vestes se tornavam imprestáveis e ficava nu recebia vestes novas.

O que admiro nos cínicos é a coragem e autenticidade de zombetear de certas convenções sociais e viver da maneira que se sentiam felizes. Certamente não quero mais chegar à conclusão de que fiz coisas nas quais não acredito. Por isso, presas a certas convenções esdrúxulas, algumas pessoas podem zombar dos meus andrajos, enquanto eu as condenarei a viver escravas de suas convenções até o fim de suas vidas, ou da mudança de tais convenções. E sigo sorrindo cinicamente feito um cão zombando das privações a que muitos se submetem para poder se vestir de acordo com as convenções. Au, au, au...


P.S.: As informações históricas e filosóficas foram consultadas nas seguintes referências bibliográficas:

· ANDRE VERGEZ e DENIS HUISMAN – História dos filósofos
· PAULO GHIRALDELLI JR: “O cão e a Filosofia no lar” - 17/04/2010
· ROLAND CORBISIER – Introdução à Filosofia
· TIAGO ADÃO LARA – Caminhos da razão no ocidente: a Filosofia nas suas origens gregas.

(1)- Música: Metal Contra as Nuvens. Autores: DADO VILLA-LOBOS/ RENATO RUSSO/ MARCELO BONFÁ).
(2)- ROLAND CORBISIER – Introdução à Filosofia
(3)- ANDRE VERGEZ e DENIS HUISMAN – História dos filósofos
(4)- Idem (2)
(5)- TIAGO ADÃO LARA – Caminhos da razão no ocidente: a Filosofia nas suas origens gregas.
(6)- Idem (2)
(7)- Idem (2)
(8)- PAULO GHIRALDELLI JR: “O cão e a Filosofia no lar” - 17/04/2010

 


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